As
Personalidades
do 2º Milênio
Miguel de Cervantes
Milton, John |
Muitas pessoas ajudaram a mudar
e a fazer este 2º Milênio. Algumas pelo bem, ou pelas suas obras, outros pelo mal, mas
todas formataram o Milênio. Aqui você poderá
encontrar dados biográficos sobre essas personalidades do Milênio, cujos nomes começam
com as letras:
L - M - N - O
Miguel de Cervantes (1547-1616).
Escritor espanhol. Famoso por Dom Quixote, uma das obras-primas da literatura universal.
Um dos escritores de maior repercussão na literatura universal, Cervantes criou com o Dom
Quixote uma das obras-primas da literatura de todos os tempos: com ela nasceu o romance
moderno e seu herói tornou-se o arquétipo do idealista a qualquer preço.
Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em Alcalá de Henares, provavelmente em 29 de setembro
(dia de são Miguel) de 1547, e sabe-se que foi batizado em 9 de outubro. Estudou em
Valladolid e Madri, serviu a partir de 1569 como soldado na Itália e participou, em 7 de
outubro de 1571, da vitoriosa batalha naval de Lepanto contra os turcos, em que saiu
gravemente ferido. Participando da expedição contra Túnis, em 1575 foi feito
prisioneiro por um corsário árabe e passou cinco anos no cativeiro, mas recebeu bom
tratamento de seus carcereiros, apesar das quatro tentativas de fuga, e em 1580 foi
resgatado por um religioso trinitário.
De volta à Espanha, teve dificuldade em adaptar-se. Sua produção literária não
obtinha sucesso e, nomeado coletor de impostos, várias vezes foi preso, em parte por
denúncias falsas ou motivos não explicados. Só em 1605 a publicação do Dom Quixote
aliviou-lhe a situação material. A obra teve sucesso tão grande que um anônimo, de
identidade até hoje não revelada, publicou sob o pseudônimo de Alonso Fernández
Avellaneda uma segunda parte apócrifa do romance. A partir de então, conseguindo ajuda
financeira, Cervantes pôde dedicar-se exclusivamente à literatura.
Dom Quixote. El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha teve seis edições no mesmo
ano de sua publicação. Traduzido para o inglês e o francês, foi amplamente difundido
em toda parte, até se tornar um dos mais lidos romances em todo o mundo, por crianças e
adultos. Para fazer frente à falsa segunda parte lançada por Avellaneda, Cervantes,
publicou sua própria segunda parte em 1615. Já no prólogo da primeira afirmara ser a
obra "uma invectiva contra os livros de cavalaria" que, durante muito tempo,
transtornaram a cabeça das pessoas.
Se é certo esse propósito satírico, ou se há no livro um retrato irônico e
melancólico da Espanha imperial e guerreira, o fato é que o romance supera de muito
quaisquer intenções primeiras para transformar-se numa grande alegoria da condição e
do destino humano, e do sentido universal da vida. A partir da aventura, que é o cerne da
obra, Cervantes elabora a estrutura do romance num encadeamento de viagens ou saídas dos
personagens, que vão sendo compostos à medida que se desenvolve a ação.
O idealismo da cavalaria e do realismo renascentista e picaresco são simbolizados nos
dois personagens centrais. D. Quixote representa o lado espiritual, sublime sob certos
aspectos, e nobre da natureza humana; Sancho Pança, enquanto isso, vive o aspecto
materialista, rude, animal. A par disso, o humanismo e o significado filosófico conferem
maior universalidade à obra, que é vista como símbolo da dualidade do ser humano,
voltado para o céu e preso à terra.
Esse dualismo, muito bem ressaltado pela ideologia barroca dominante na época de
Cervantes, foi muito bem assimilado por ele. É um motivo de natureza universal,
particularizado em cada criatura, que o mestre procura disfarçar sob a forma de aventura
cavalheiresca, inserida num mundo de fantasia: de um lado, o amor do honesto e do ideal;
do outro, o do útil e do prático, dois princípios de vida que se dão as mãos no
cavaleiro e no escudeiro.
Como ficou claro para os estudiosos, o traçado do romance obedece a um plano rigoroso, em
que as várias excursões do cavaleiro se compõem em movimentos circulares, com os quais
expressa a noção barroca do destino e a preocupação com o mundo, em que acaba por
descobrir o vazio e a inanidade, a desilusão e o desengano, resultados muito distintos
das peregrinações medievais e góticas, em linha reta, em direção a Deus ou à
sepultura.
Exatamente por isso, o modo como o escritor soube resolver a tensão narrativa entre o
real e o imaginário é uma de suas contribuições essenciais.
A primazia desse aspecto afetivo traduz-se numa ética de bondade, que se manifesta, em
seu mais alto grau, nas relações entre D. Quixote e Sancho Pança, o cavaleiro e o
escudeiro, o senhor e seu amigo.
A primeira tradução do D. Quijote para a língua portuguesa foi impressa em Lisboa em
1794. Seguiram-se várias outras, entre as quais a de Antônio Feliciano de Castilho, que
apareceu de 1876 a 1878 no Porto, ilustrada com desenhos do francês Gustave Doré. Essa
mesma versão foi retomada em 1933 pela Livraria Lello & Irmão, em dois grandes
volumes, e difundida em edição mais simples tanto em Portugal como no Brasil. No Brasil
foi publicada na década de 1980 a tradução feita por Almir de Andrade e Milton Amado.
Novelas exemplares. Não é justo explicar a glória literária de
Cervantes exclusivamente pelo D. Quijote. Se não tivesse escrito esse grande romance,
estaria imortalizado como autor de Novelas ejemplares (1613; Novelas exemplares), um dos
mais importantes volumes de contos da literatura universal. O adjetivo ejemplar refere-se
à intenção moral de Cervantes ao escrever essas pequenas obras-primas, intenção que
nem sempre é evidente, porque constam do volume três séries de novelas muito
diferentes. Novelas idealistas, de aventuras e acidentes perigosos que acabam bem são
"El amante liberal", "La española inglesa", "Señora
Cornelia" e sobretudo a magistral "La fuerza del sangre" ("A força do
sangue").
Ideal-realistas são "La ilustre fregona" ("A criada ilustre") e
"La gitanilla" ("A ciganinha"). O realismo de Cervantes triunfa em
"El casamiento engañoso", em "El celoso extremeño" ("O
estremenho ciumento"), na novela picaresca "Rinconete y Cortadillo" e no
"Licenciado Vidriera", cujo personagem principal antecipa o D. Quixote, e
sobretudo no "Coloquio de los perros" ("Diálogo dos cães"),
verdadeiro testamento da melancólica sabedoria de vida de Cervantes.
Cervantes morreu em Madri em 23 de abril de 1616. Poucos dias antes de sua morte escreveu
o prefácio de Persiles (publicado postumamente em 1617), em que cita os velhos versos:
"Puesto ya el estribo, / Con las ansias de la muerte."
Quixote, Dom
Milton, John (1608-1674).
Poeta inglês. Grande épico inglês e um dos mais
célebres britânicos da literatura, uniu a erudição renascentista à sonoridade
religiosa do barroco.
Um dos pilares da cultura de língua inglesa, Milton é um clássico em que a erudição
épica renascentista se associa à sonoridade retórica e religiosa do barroco. Maior
poeta lírico e épico inglês, modelo de Tennyson, Browning e Matthew Arnold, Milton é,
ao lado de Shakespeare e Chaucer, um dos mais célebres autores britânicos.
John Milton nasceu em Londres, em 9 de dezembro de 1608. Seu pai era banqueiro e
compositor de algum mérito, pelo que o poeta pôde desfrutar de educação excelente.
Entre 1625 e 1632, estudou em Cambridge, onde já escrevia poesia em latim, italiano e
inglês. Datam dessa época os poemas que caracterizam a fase idílica da obra de Milton,
como "L'Allegro" ("O alegre") e "Il Penseroso" ("O
contemplativo"), de 1631. O primeiro é um hino à vida campestre, às danças e à
alegria. Mais que contraponto do primeiro, o segundo poema é seu complemento, pois louva
a vida contemplativa, a leitura e o recolhimento.
Além de poemas, nessa fase escreveu a peça teatral Comus, a Mask (1634; Comus, um
disfarce), fábula pastoral e mitológica em que pela primeira vez aborda o conflito entre
bem e mal, tema que o preocupou até o fim da vida. Viveu seis anos no interior da
Inglaterra, na propriedade paterna, e após perder a mãe, em 1638, viajou pela Itália e
entrou em contato direto com a arte renascentista que tanto admirava.
Pode-se dividir a vida de Milton, assim como sua obra, em três etapas, das quais a
segunda se situa entre 1641 a 1660. Nessa fase o poeta lutou pelos puritanos e pelas
liberdades civis, e integrou seu texto à luta, como em Of Reformation Touching Church
Discipline in England (1641; Sobre a reforma da disciplina eclesiástica na Inglaterra),
primeiro de muitos libelos antieclesiásticos, e Doctrine and Discipline of Divorce (1643;
Doutrina e disciplina do divórcio), inspirado em seu casamento malsucedido.
A partir de 1644, Milton exerceu cargos oficiais e em 1651 dirigiu o jornal Mercurius
Politicus, engajado na luta política a favor de Cromwell e da república. Nessa fase
escreveu principalmente obras em prosa, nas quais defendeu a revolução e atacou a
monarquia. Não se desligou, contudo, dos problemas religiosos e, em 1655, denunciou num
soneto admirável, "On the Late Massacre in Piedmont" ("Sobre o recente
massacre em Piemonte"), o morticínio de protestantes no Piemonte, na Itália. Em
1652 ficou cego, condição que, somada a outros problemas de saúde, livrou-o da prisão
quando da restauração da monarquia.
Ficou viúvo duas vezes e em 1663 casou-se pela terceira vez. Passou os últimos anos de
vida esquecido, com graves problemas financeiros. Foi nessa terceira fase, porém, que
escreveu e publicou sua obra-prima, a epopéia Paradise Lost (1667; O paraíso perdido),
em que recria o conflito entre Lúcifer e Deus com uma metafísica monista e uma espécie
de materialismo cristão. Composta de 12 livros e escrita em pentâmetros ingleses, a obra
apresenta a inovação dos versos brancos (sem rima), com extraordinário senso de ritmo e
sonoridade. Embora o tema central seja a justificativa da justiça divina, Satã é o
personagem dominante, com traços heróicos, modelado nos grandes vilões de Shakespeare,
como Iago e Ricardo III.
Paradise Regained (Paraíso reconquistado), que mostra a vitória de Cristo sobre as
tentações, e Samson Agonistes (Sansão combatente), ambas de 1671, são obras-primas que
completam o legado poético de Milton. A última é uma tragédia inspirada no modelo
grego, e Sansão, o gigante "eyeless in Gaza" ("sem olhos em Gaza"),
tem algo de auto-retrato do poeta.
Milton morreu em Londres em 8 de novembro de 1674.
|